A tarefa está na agenda há duas semanas. Você sabe que precisa fazer, sabe até quanto tempo leva, e mesmo assim abre o e-mail, arruma a mesa, responde mensagens que podiam esperar. À noite vem a culpa, e no dia seguinte o roteiro se repete. Quando o prazo aperta, você entrega, muitas vezes bem, e jura que vai ser diferente da próxima vez.
Procrastinar é um dos hábitos que mais geram culpa e autocrítica. Este texto explica o que a pesquisa diz sobre por que adiamos, qual é a relação com o TDAH e o que costuma ajudar.
Em resumo: procrastinar não é preguiça nem falta de caráter. É uma dificuldade de regular o próprio comportamento diante de tarefas desagradáveis, e pode ter várias causas. O TDAH é uma delas, mas não a única: adiar tarefas sozinho não indica TDAH.
O que é procrastinar?
Procrastinar é adiar voluntariamente algo que se pretendia fazer, mesmo sabendo que o adiamento vai trazer prejuízo. Uma revisão clássica sobre o tema, que reuniu centenas de estudos, chama a procrastinação de falha de autorregulação: a pessoa sabe o que deveria fazer e, ainda assim, não consegue se colocar em ação.[1]
Não é o mesmo que planejar uma pausa ou deixar de fazer o que não é prioridade. O que caracteriza a procrastinação é o desconforto e o prejuízo que o adiamento causa.
Por que a gente procrastina?
As pesquisas apontam alguns fatores que se repetem:
- A tarefa é desagradável ou entediante. Quanto menos prazer a tarefa dá, mais a gente adia.
- O retorno está longe. O prazo distante parece pouco importante, e a recompensa imediata de outra atividade pesa mais.
- Baixa confiança na própria capacidade de dar conta do que precisa ser feito.
- Impulsividade e dificuldade de manter o foco, que fazem qualquer distração parecer mais atraente do que a tarefa.
A mesma revisão encontrou que a procrastinação se relaciona com aspectos como autocontrole, distratibilidade e organização.[1] Quem procrastina muito também tende a se sentir pior, o que reforça o hábito: a culpa e a ansiedade tornam a tarefa ainda mais desconfortável, e o adiamento vira alívio.
Procrastinação é sintoma de TDAH?
Não necessariamente. Procrastinar não faz parte dos critérios diagnósticos do TDAH. Mas há relação: um estudo com universitários encontrou que sintomas de desatenção se associavam a mais procrastinação.[2] Faz sentido, porque o TDAH envolve dificuldade de sustentar a atenção, de organizar e priorizar, de começar tarefas pouco estimulantes e de estimar o tempo.
Na prática, no TDAH a procrastinação costuma vir acompanhada de outros sinais: perda de objetos, esquecimentos frequentes, dificuldade de terminar o que começou, "travamento" diante de tarefas com muitas etapas e alternância entre hiperfoco e falta de engajamento. Para entender melhor esses sinais, leia TDAH em adultos: sintomas, impactos e como buscar avaliação.
Também é comum procrastinar por ansiedade, perfeccionismo ou depressão. O diagnóstico é clínico e só uma avaliação individual esclarece a origem.
Como diferenciar procrastinação comum de algo mais
Algumas perguntas ajudam a refletir, sem substituir uma avaliação:
- O padrão vem desde a infância ou adolescência, ou começou em uma fase específica da vida?
- Ele aparece em várias áreas (trabalho, casa, finanças, relacionamentos) ou só em uma?
- Vem acompanhado de esquecimentos, desorganização e dificuldade de manter a atenção?
- Causa prejuízo real e persistente?
Se a resposta for sim para várias delas, vale conversar com um profissional.
O que pode ajudar
- Divida a tarefa em partes pequenas. "Escrever o relatório" é vago. "Abrir o arquivo e escrever o primeiro parágrafo" é concreto e mais fácil de começar.
- Combine com um prazo próximo e visível. Prazos distantes perdem força. Um compromisso com outra pessoa, como mostrar o rascunho a um colega na quinta, ajuda.
- Comece por dois minutos. O mais difícil costuma ser o início. Pode ajudar combinar consigo mesmo trabalhar só por alguns minutos e ver o que acontece.
- Reduza as distrações do ambiente. Celular fora da mesa, notificações desligadas, um lugar só para essa tarefa.
- Use lembretes externos. Quem tem dificuldade de organização se beneficia de agenda, alarmes e listas, e não da memória.
- Troque a autocrítica pela curiosidade. "O que tornou esta tarefa difícil de começar?" leva mais longe do que "sou um fracasso".
Como a psicoterapia ajuda
A Terapia Cognitivo-Comportamental é uma das abordagens com respaldo em pesquisas para adultos com TDAH, ajudando a reduzir sintomas e a melhorar o funcionamento no dia a dia.[3,4] O trabalho inclui estratégias de organização e gestão do tempo, ajustes no ambiente, treino para começar e terminar tarefas e manejo da autocrítica e da ansiedade que costumam acompanhar o quadro.
Quando a procrastinação está ligada a perfeccionismo, medo de errar ou baixa autoconfiança, o trabalho psicológico também vai nessas crenças. O andamento varia de pessoa para pessoa.
Quando buscar ajuda
Considere procurar um profissional se a procrastinação:
- Está causando prejuízos no trabalho, nas finanças ou nos relacionamentos
- Vem acompanhada de desorganização, esquecimentos e dificuldade de concentração desde sempre
- Gera ansiedade, culpa ou tristeza intensas
Se a dificuldade aparece junto com pressão por desempenho, leia também Síndrome do impostor no trabalho.
Perguntas frequentes
Não necessariamente. Muita gente procrastina por ansiedade, perfeccionismo, tédio ou cansaço. No TDAH, a procrastinação costuma vir junto com outros sinais de desatenção e desorganização que vêm desde a infância. Só uma avaliação individual esclarece.
Em geral, não. A pesquisa descreve a procrastinação como dificuldade de regular o comportamento diante de tarefas desagradáveis, e não como falta de caráter.
Não. Muitas pessoas com TDAH têm bom desempenho em atividades que as interessam e dificuldade em tarefas de pouco estímulo. O padrão varia bastante de pessoa para pessoa.
A psicoterapia, principalmente a TCC, trabalha estratégias práticas e as crenças que sustentam o adiamento, e tem respaldo em pesquisas para adultos com TDAH. O resultado varia de pessoa para pessoa.
Referências
- Steel P. The nature of procrastination: a meta-analytic and theoretical review of quintessential self-regulatory failure. Psychol Bull. 2007;133(1):65-94. PubMed.
- Niermann HCM, Scheres A. The relation between procrastination and symptoms of attention-deficit hyperactivity disorder (ADHD) in undergraduate students. Int J Methods Psychiatr Res. 2014;23(4):411-421. PubMed.
- Knouse LE, Teller J, Brooks MA. Meta-analysis of cognitive-behavioral treatments for adult ADHD. J Consult Clin Psychol. 2017;85(7):737-750. doi:10.1037/ccp0000216.
- Young Z, Moghaddam N, Tickle A. The efficacy of cognitive behavioral therapy for adults with ADHD: a systematic review and meta-analysis of randomized controlled trials. J Atten Disord. 2020;24(6):875-888. doi:10.1177/1087054716664413.
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