Você recebe um convite e até quer ir. Mas, conforme a data se aproxima, começa a imaginar as conversas, as perguntas e tudo o que poderia dar errado.
“E se eu não tiver assunto? Se perceberem que estou nervoso?”
Chega o dia e você cancela. A ansiedade diminui, mas pode aparecer outra cobrança: “Por que eu não consigo fazer uma coisa tão simples?”
O vídeo em que Felca fala da própria experiência com fobia social trouxe o tema para a conversa pública. Para quem se reconheceu no relato, vale entender como esse medo pode aparecer e quando procurar avaliação. A experiência de outra pessoa pode ajudar a nomear uma dificuldade, mas não confirma um diagnóstico.
O que é fobia social?
Fobia social, também chamada de transtorno de ansiedade social, envolve um medo persistente de ser observado, avaliado ou julgado negativamente em situações sociais.
A preocupação pode aparecer ao falar numa reunião, conhecer alguém, fazer uma ligação ou comer enquanto outras pessoas observam. Às vezes, começa dias antes do compromisso. Depois, a pessoa pode passar um bom tempo revendo o que disse e procurando sinais de que fez algo errado. [1]
Uma pausa na conversa vira motivo para pensar que foi inconveniente. Um comentário que ninguém retomou continua ocupando a cabeça no caminho de volta.
Quando a timidez pede uma avaliação?
Ser reservado, preferir grupos pequenos ou ficar nervoso numa apresentação não basta para caracterizar fobia social.
A avaliação considera há quanto tempo o medo acontece, sua intensidade e o quanto interfere no trabalho, nos relacionamentos e nas atividades cotidianas. Para o diagnóstico, esse medo precisa durar pelo menos seis meses e causar prejuízo na vida diária. [1] Um episódio isolado ou uma lista de sintomas na internet não fecha diagnóstico.
Uma pergunta útil é: de quais situações você tem se afastado, mesmo querendo participar?
Por que evitar pode tornar o próximo encontro mais difícil?
Cancelar pode trazer alívio imediato. Depois, podem vir a culpa e aquela sensação de incapacidade: “Eu não dou conta”.
Quando essa saída se repete, a pessoa não chega a descobrir como seria atravessar o encontro e perde a chance de testar outras respostas. O próximo convite pode parecer ainda mais difícil, e os encontros vão ficando menos frequentes.
Esse afastamento nem sempre significa falta de interesse. A pessoa pode querer estar presente e, ao mesmo tempo, sentir muito medo do que imagina que acontecerá ali.
Como a Terapia Cognitivo-Comportamental pode ajudar?
A Terapia Cognitivo-Comportamental, ou TCC, é uma das abordagens mais estudadas no tratamento da ansiedade social. O trabalho pode incluir reconhecer e questionar pensamentos sobre julgamento e enfrentar situações temidas de forma gradual, com planejamento. Em alguns casos, o tratamento também envolve avaliação médica e medicação. [1]
“Vão achar que eu sou incapaz” pode parecer uma certeza antes de uma reunião. Na terapia, a gente pode examinar essa previsão e trabalhar formas de participar da conversa, em vez de organizar toda a rotina para evitá-la.
Os objetivos precisam fazer sentido para a pessoa: conseguir apresentar uma ideia no trabalho, aceitar um convite ou conversar com alguém que gostaria de conhecer.
Quando buscar ajuda?
Vale procurar avaliação quando o medo começa a limitar suas escolhas, comprometer seus vínculos ou exigir um esforço difícil de sustentar.
Você pode levar para a primeira conversa justamente as situações que vem evitando e o que costuma pensar antes delas.
Marcus Pereira · Psicólogo Clínico
CRP 04/54005
Conteúdo informativo. A identificação de um transtorno exige avaliação profissional.
Referências
- National Institute of Mental Health. Social Anxiety Disorder: What You Need to Know.
Se você está em situação de crise, ligue para o CVV (188), disponível 24 horas, ou procure o pronto-socorro mais próximo.
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