Você deita cansado, e assim que apaga a luz a cabeça acende. Revive a reunião, antecipa o dia seguinte, calcula quantas horas de sono restam. Olha o relógio uma vez, duas vezes, e o sono que já estava difícil vira preocupação com o próprio sono.
A relação entre ansiedade e insônia é muito frequente. Neste texto, explico por que elas se alimentam, o que costuma piorar o quadro e o que pode ajudar.
Em resumo: ansiedade atrapalha o sono, e dormir mal aumenta a ansiedade. Quando esse ciclo se instala, ajudam bons hábitos de sono e, em muitos casos, a Terapia Cognitivo-Comportamental para insônia, com respaldo em pesquisas. Insônia persistente merece avaliação.
Por que a ansiedade atrapalha o sono?
Para dormir, o corpo precisa sair do estado de alerta. Na ansiedade, o sistema de alerta continua ativo: o coração fica mais acelerado, os músculos tensos e a mente cheia de pensamentos. À noite, sem distrações, as preocupações ganham espaço.
Há ainda um segundo problema: a preocupação com o próprio sono. Quem já teve noites ruins passa a ter medo de não dormir, e o medo aumenta a vigilância, que atrapalha ainda mais o sono. É o que costuma manter a insônia mesmo depois de o momento difícil passar.
O que é insônia?
Insônia é a dificuldade de começar a dormir, de manter o sono ou de acordar cedo demais e não conseguir voltar a dormir, com prejuízo durante o dia, como cansaço, irritabilidade e dificuldade de concentração.[1] Nem toda noite ruim é insônia. Fala-se em quadro de insônia quando o problema é frequente e persiste ao longo de semanas ou meses.
Insônia e ansiedade muitas vezes aparecem juntas, e também com depressão, estresse e outros problemas de saúde. Por isso, vale avaliar o conjunto.
O que costuma piorar a insônia
Algumas atitudes bem-intencionadas mantêm o problema:
- Passar muito tempo na cama tentando dormir. A cama vira associada a ficar acordado e preocupado.
- Cochilar no fim da tarde ou dormir demais aos fins de semana, desregulando o relógio interno.
- Cafeína, nicotina e álcool à noite. O álcool pode dar sono no começo, mas fragmenta o sono depois.
- Telas na cama. Além da luz, o conteúdo mantém a mente ativa.
- Olhar o relógio. Cada olhada vira conta de horas perdidas e aumenta a ansiedade.
- Tentar "forçar" o sono. Quanto mais esforço, mais alerta.
O que pode ajudar
- Horários regulares. Deitar e levantar mais ou menos na mesma hora todos os dias, inclusive nos fins de semana.
- Rotina de desaceleração. Meia hora antes de dormir, reduza luz, telas e assuntos de trabalho. Um banho morno, leitura leve ou alongamento ajudam algumas pessoas.
- Use a cama para dormir. Se ficar acordado por bastante tempo, levante, vá para outro lugar com pouca luz e volte quando o sono vier.
- Tire as preocupações da cabeça. Anote, no fim da tarde, o que está pendente e o primeiro passo para o dia seguinte. Isso ajuda a "guardar" o assunto.
- Limite estimulantes. Cafeína só até o início da tarde, e álcool longe da hora de dormir.
- Movimente-se durante o dia. A atividade física regular ajuda, evitando exercício muito intenso perto da hora de dormir.
- Evite olhar o relógio.
Essas medidas ajudam em muitos casos, mas não substituem avaliação quando o problema é persistente.
Terapia para insônia
A Terapia Cognitivo-Comportamental para insônia (TCC-I) é um tratamento estruturado, que combina educação sobre o sono, controle de estímulos (associar a cama ao sono), ajuste do tempo na cama, técnicas de relaxamento e trabalho com pensamentos e preocupações sobre o sono. Uma revisão sistemática com metanálise encontrou que a TCC para insônia crônica melhora de forma significativa desfechos como o tempo para adormecer, o tempo acordado durante a noite e a eficiência do sono.[2]
Como a ansiedade costuma estar por trás, o trabalho também pode incluir estratégias para lidar com preocupações e tensão. Em alguns casos, a avaliação médica é necessária, inclusive para verificar outras causas do problema de sono ou a necessidade de medicação.
Quando buscar ajuda
Considere procurar um profissional se:
- A dificuldade de dormir dura mais de algumas semanas
- Você sente cansaço, irritabilidade ou dificuldade de concentração durante o dia
- Percebe ansiedade, tristeza ou preocupação intensas junto com o problema
- Usa álcool ou outras substâncias para conseguir dormir
- Ronca muito, tem pausas na respiração ou sono muito agitado (nesse caso, procure avaliação médica)
Para entender melhor a ansiedade, leia Sintomas de ansiedade: como reconhecer e quando buscar ajuda e Como parar de pensar demais. Se a tristeza está presente, veja Depressão e tristeza.
Perguntas frequentes
Pode causar. A ansiedade mantém o corpo em alerta e a mente ocupada, o que dificulta adormecer e manter o sono. Por sua vez, dormir mal aumenta a ansiedade, formando um ciclo.
Varia de pessoa para pessoa. Em geral, adultos se beneficiam de sete horas ou mais por noite, mas o mais importante é acordar descansado e funcionar bem durante o dia.
Sim. A TCC para insônia tem respaldo em pesquisas e costuma ser um dos tratamentos recomendados para a insônia crônica. Em alguns casos, também há avaliação médica.
Não é recomendado. Medicamentos para o sono devem ser indicados por médico, após avaliação. O psicólogo não prescreve medicamentos.
Referências
- American Psychiatric Association. Manual diagnóstico e estatístico de transtornos mentais: DSM-5-TR. Porto Alegre: Artmed; 2023.
- Trauer JM, Qian MY, Doyle JS, Rajaratnam SMW, Cunnington D. Cognitive behavioral therapy for chronic insomnia: a systematic review and meta-analysis. Ann Intern Med. 2015;163(3):191-204. doi:10.7326/M14-2841.
Se você está em situação de crise, ligue para o CVV (188), disponível 24 horas, ou procure o pronto-socorro mais próximo.
Quer entender melhor como a psicoterapia pode ajudar? Veja mais sobre o atendimento online →
